Rafael (nome fictício) passeava com seu cachorro quando o animal avançou de repente sobre outro cão no condomínio. O puxão da coleira torceu seu dedo com força, gerando um mecanismo de torção sobre a falange proximal, capaz de fraturar o osso mesmo sem um trauma visualmente dramático. Para evitar esse tipo de lesão, o ideal é segurar a guia com firmeza, sem enrolá-la nos dedos, e manter atenção redobrada em ambientes com outros animais.

O diagnóstico

Fraturas por torção como essa costumam ser sutis nas radiografias iniciais. No caso de Rafael, a lesão parecia praticamente sem desvio, inclusive para o ortopedista que o atendeu na emergência, mas já havia um desvio discreto, difícil de perceber sem uma avaliação específica do especialista em cirurgia da mão.

Rafael foi imobilizado e orientado a manter acompanhamento ambulatorial. O problema é que, sem o acompanhamento precoce com o cirurgião de mão, esse pequeno desvio inicial foi progredindo ao longo das semanas seguintes, e a fratura acabou consolidando fora da posição ideal. Quando finalmente chegou à consulta especializada, três semanas após o trauma, o quadro já era outro: ao fechar a mão, Rafael apresentava um desvio rotacional importante, com um dedo passando por cima do outro, o que comprometeria atividades físicas, o trabalho e até tarefas simples como manipular objetos ou tocar instrumentos musicais.

O tratamento

Se identificado logo após o trauma, esse desvio inicial provavelmente poderia ter sido corrigido de forma conservadora, ainda no consultório, sem necessidade de cirurgia. Como a fratura já estava consolidada havia três semanas, no entanto, foi necessário um procedimento maior: "refrescar" a fratura, termo usado pelo Prof. José Mauricio Carmo, um dos pioneiros da cirurgia da mão no Brasil ou seja, refazer o foco de fratura de forma controlada para permitir um novo alinhamento correto. Rafael foi operado já no dia seguinte à consulta.

A cirurgia

A equipe optou pela fixação com parafuso intramedular, técnica que vem ganhando espaço como alternativa ao tradicional fio de Kirschner por permitir mobilização mais precoce e melhores resultados funcionais . Em geral, esse tipo de implante não corrige, por si só, o desvio rotacional. Mas, nesse caso, o parafuso disponível tinha diâmetro exatamente compatível ao canal medular da falange proximal de Rafael, ficando tão ajustado dentro do osso que impediu a rotação do fragmento ao redor do próprio eixo, controlando também o desvio rotacional além de estabilizar a fratura.

Pré-operatório

Pós-operatório

A recuperação

Essa estabilidade permitiu iniciar a mobilização ativa do dedo já no primeiro dia pós-operatório, reduzindo o risco de rigidez articular e de aderências cicatriciais.

Após a cirurgia, Rafael recuperou o alinhamento correto do dedo, com consolidação óssea adequada e sem sinais de desvio rotacional.

O que este caso ensina

Esse caso reforça dois pontos importantes. O primeiro é sobre o cuidado ao conduzir pets: segurar a coleira corretamente pode evitar lesões sérias, mesmo em situações que parecem banais. O segundo é sobre o tempo entre o trauma e a avaliação especializada: fraturas de mão, mesmo quando discretas nas radiografias iniciais, podem esconder desvios que evoluem sem o acompanhamento adequado. Quanto antes o especialista avalia, maiores as chances de um tratamento mais simples, e melhores as chances de preservar a função da mão para o trabalho, o esporte e até para tocar um instrumento.

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